Num mundo onde a globalização é crescente, mas também um processo com séculos de História (e estórias), este é o registo das impressões e sensações, de um emigrante, numa cultura distinta e distante.
Quarta-feira, 22 de Abril de 2009
De Thule a Iceland – História da Islândia 1
Islândia / Iceland / Ísland
IS em islandês significa gelo ou gelado
Islândia = terra do gelo ou gelada
Depois de algum tempo semi-ausente, irei reactivar este blog, talvez influenciado pela chegada das aves, atraídas pelo primeiro sopro da primavera do árctico.
Entretanto, as eleições islandesas aproximam-se sem grande alarido. Nas ruas não existem cartazes, nem viaturas a debitar as “palavras de ordem” dos candidatos ao parlamento. Serão os efeitos do colapso económico que no dia a dia, talvez resguardado pelos fiordes, teima em não se fazer notar?
Quer em Reykjavík, como em Akureyri, não compreendo a inexistência dos sinais reais da falência de todos os bancos do país. Praticamente, só o abandono a meio de todas as obras de construção civil nos relembra que alguma coisa não está bem. Será que os islandeses têm consciência disso?
Com o reactivar do blog vou postar, periódica e intercaladamente, a história deste país em capítulos. Neste primeiro capítulo irei dar a conhecer os nomes de baptismo que o jovem país já teve. Daí o nome – de Thule a Iceland.
A Gronelândia (Greenland = Terra Verde) foi baptizada de forma a atrair mais colonos. Tendo em conta a sua latitude, o clima da Islândia é temperado, mantendo-se verde muito mais tempo do que a Gronelândia. Sendo assim, façamos uma viagem no tempo, para compreender o nome de “Terra do Gelo”.
Ultima Thule
Geologicamente a Islândia é o país mais recente da Europa. É também, o ultimo a ser povoado, tendo a sua colonização acontecido durante a idade média. Contudo, acredita-se que a referência à “ilha mais a norte do mundo” que o explorador Pytheas de Massalia (300 AC) denominou de Thule ou Ultima Thule, se tratasse desta ilha de tantos contrastes.
Este nome foi usado até à primeira fase da idade média, nomeadamente, pelos irlandeses que foram cristianizados muito cedo.
Os monges irlandeses, na procura de servir Deus no isolamento das suas orações, rumaram nos seus currachs (pequenos barcos) até às ilhas Faroe (ilha das ovelhas), ainda no séc. VII. Levaram consigo ovelhas, livros e os utensílios necessários para as temporadas, mais ou menos alargadas de contemplação religiosa. Crê-se que terão chegado à Thule (Islândia) durante o século VIII.
Quando os nórdicos chegaram à Ilha, a convivência tornou-se insuportável para os papar (nome atribuído pelos vikings aos monges irlandeses e que significa “pais”), já que os escandinavos eram rudes e pagãos. O choque, fez os irlandeses abandonar a Islândia à pressa, como comprova o facto de deixarem os livros, cruzes, lamparinas e outros utensílios para trás.
Os nórdicos não consideram estes monges irlandeses como os primeiros colonos, na medida em que as suas estadias eram intermitentes e posteriormente abandonadas.
A influência da cultura irlandesa desapareceu tão rápido como a fuga dos monges.
Monges irlandeses nos seus currachs (pequeno barco).
Snowland
Em meados do séc. IX o viking Naddoddur perdeu-se na viagem da Noruega para as ilhas Faroe, vindo parar na costa este da Islândia.
Naddoddur é considerado o primeiro Viking que desembarcou na ilha.
Procurando saber mais acerca desta terra desconhecida, explorou os arredores na costa, acabando por subir ao cimo de uma montanha, procurando vestígios de fumo ou algum sinal de vida. A única coisa que encontrou foi a neve em derrocada pela encosta da montanha. Assim, acabou por baptizar esta nova terra para os escandinavos de Snowland, regressando à Noruega.
Gardar`s Island (Gardarshólmi)
O segundo Viking a rumar à Islândia (pelo menos, suficientemente Nobre e com viagem preparada) foi Gardar Svavarsson, de origem sueca. Foi Gardar que fez a viagem de circum-navegação à Snowland, vindo a constatar tratar-se de uma ilha.
Durante o Inverno estabeleceram-se no norte, numa baía que denominaram de Husavík (baía casa), hoje capital do Whale Watching.
Ao partirem, Náttfari ficou perdido em terra com 2 escravos, esquecidos por Gardar. Talvez por Nátffari não ser suficientemente nobre ou por ter ficado involuntariamente, não é considerado o primeiro colonizador da Islândia.
Quando Gardar acabou a viagem de circum-navegação, rebaptizou a ilha de Gardarshólmi (ilha de Gardar), nome que viria a ser adoptado pelos nórdicos na época.
Iceland (Islândia)
Representação da viagem do Viking Flóki Vilgerdarson, denominado de Raven-Flóki, devido ao episódio de lançamento dos corvos, que o levou a encontrar a Islândia.
Flóki Vilgerdarson (posteriormente denominado de Raven-Flóki) foi o terceiro viking a visitar intencionalmente a Gardarshólmi. Veio com a intenção de colonizar a ilha, fazendo-se acompanhar pela família e amigos.
Flóki era um devoto do mais antigo paganismo e levou 3 corvos com ele. Diz a lenda que próximo da nova terra lançou-os, um por um, para que indicassem o caminho a fazer, de modo a não se perder.
Após ser lançado no ar, o primeiro dos corvos voltou para trás, talvez rumo às ilhas Faroe, o local de partida desta expedição. O segundo voou em círculos e regressou ao barco. O terceiro voou em direcção à ilha, indicando o caminho ao navegador.
Flóki percorreu a península de Reykjanes, a costa sul da Islândia e acabou por desembarcar num fiorde no noroeste islandês, onde a terra era fértil e a natureza convidativa.
Todo o verão foi passado a pescar e a caçar, sem contudo terem em conta o Inverno rigoroso que se aproximava. Nesse Inverno os animais morreram de fome e frio e Flóki e os seus homens passaram imensas dificuldades.
Quando a primavera, por fim chegou, começaram a preparar o regresso. Nessa altura, Flóki subiu ao topo da montanha e olhando o fiorde do outro lado, encontrou-o repleto de gelo. Frustrado, deu o nome de Iceland (Terra do Gelo) ao novo país.
O nome manteve-se até aos dias de hoje.
A partir daqui começa a “idade da colonização”, sendo o primeiro colonizador Ingólfur Arnarsson, acompanhado do seu meio-irmão Hjörleifur Hródmarsson que desembarcaram na ilha no ano de 870.
Conhecendo Siglufjördur – do Eyjafjördur até ao Skagafjördur
Vídeo da viagem. Um olhar entre a neve e as landscapes de 3 fiordes islandeses.
Viagem pelo Eyjafjördur, Siglufjördur e o Skagafjördur
A aventura da pesca do arenque e o Herring Era Museum.
No último fim-de-semana organizei um pequeno passeio a 3 fiordes do norte da Islândia. Foram 2 dias percorrendo o oeste do fiorde Eyja, o fiorde Siglu e o fiorde Skaga.
Não foi, contudo, uma jornada nova para mim. Aliás, já postei idêntica viagem com o meu amigo Nuno, quando ele visitou a Ilha (ver post: http://iceland-views.blogs.sapo.pt/6720.html).
A Paixão com que fiquei por Siglufjördur, a cidade mais a norte da Islândia, situada num pequeno e encantador fiorde, fez com que preparasse este passeio com particular expectativa. Ia voltar a um local que me tinha fascinado em Maio passado. Sabia que agora a paisagem seria bem diferente, e que o extenso manto branco do inverno insular me acompanharia ao longo das distintas landscapes.
Na semana que antecedeu a viagem telefonei para os responsáveis dos museus que pretendia visitar. Normalmente, durante o inverno, encontram-se fechados. Assim, a melhor garantia, é usar o telemóvel, de forma a marcar uma hora.
As impressivas montanhas islandesas
O 1º Dia. Do Eyjafjördur até Siglufjördur
Partimos pelas 8 h da manhã, debaixo de -12º C, rumo a Dalvík, onde se situava a primeira paragem previamente combinada (sabíamos que iríamos fazer muitas outras pelo caminho), de forma a vermos o museu Hvoll, que além de englobar uma colecção da história material, social e natural da região, foi a casa do homem mais alto do mundo. No museu poderemos conhecer todas as estórias que construíram a História da região (http://www.dalvik.is/byggdasafn/).
Pelo caminho, podemos apreciar as panorâmicas que só o Eyjafjördur é capaz de nos proporcionar.
A monotonia sugerida pelo constante manto de neve, é combatido pelos degrades cromáticos da mágica luz solar que em jogos fugidios com o algodão das nuvens, me fascinava em cada pausa para contemplação.
O Inverno islandês tem algo de mágico. É essa magia que nos transporta para os seus contos tradicionais, conjunto de fábulas povoadas de pequenos seres mágicos e gigantes de pedra, que só visualizamos quando envoltos na solitude épica das landscapes islandesas.
São séculos de isolamento, entre o fogo dos vulcões, o branco das montanhas escarpadas desenhadas pelo degelo dos glaciares e um céu desmaiado de púrpura que à noite se transforma, por vezes, em serpentes coloridas, movimentando-se no silêncio mais profundo.
Saímos do museu em Dalvík, para visitar o porto da cidade.
Continuando viagem, seguimos na direcção de Olafsjördur, mais uma pequena cidade, num fiorde de reduzidas dimensões. Antes de entramos no túnel que liga o Eyjafjördur ao Olafsjördur, mais uma paragem para apreciar a belíssima panorâmica que percorre o mais longo fiorde do país.
De seguida, teríamos de cruzar a montanha rumo a Siglufjördur. Estava preocupado pois éramos 5 num VW Pólo. Se a estrada não estivesse limpa, o carro iria patinar nas subidas, sem conseguir avançar. Tivemos sorte, pois os 2 dias anteriores tinham sido de céu limpo, acompanhado de temperaturas negativas. Além disso, fizemos a estrada pela tarde. Ou seja, já batida por outras viaturas mais bem preparadas para as agruras islandesas. O facto de estrada ser em gravilha e não alcatroada acabou também por ajudar. Muitas vezes, ouvimos a neve raspar por baixo dos nossos pés, já que no vácuo formado pelo eixo das rodas se acumulava neve. E assim cruzamos a montanha, ao som dos Beatles, FM Belfast, Ojos de Brujo e algum jazz.
Antes de chegarmos a Siglufjördur, fizemos uma paragem especial numa das panorâmicas que mais me fascinaram até hoje. Trata-se da confluência entre o lago Mikla e o oceano glaciar Ártico. No post da viagem em Maio passado, coloquei uma foto desta vista, onde poderão notar as diferentes texturas entre a água do lago e a água do oceano, separadas por um singelo cordão de pedras. Desta vez, o lago não só estava congelado, como também, carregado de neve. Parecia que o oceano magicamente se detinha na neve fofa, como que capaz de afagar a sua revolta nas suas carícias mais ternas. Assim se revelava a solitude épica, tão cinemática e reconciliadora. Ao longe as impressivas montanhas de íngremes colinas, tão características do país, compunham a tela.
Estávamos quase em Siglufjördur, onde iríamos pernoitar. Eram 17 horas e os azuis mais carregados anunciavam o crepúsculo. Passamos pelo pequeno farol laranja que anunciava a proximidade do nosso destino. Fazendo a estrada que agora se estendia paralelamente ao oceano, chegamos ao túnel de 900 m de extensão, porta de entrada do fiorde que anteriormente me havia encantando. Tudo no isolamento pode virar mágico. Até a singularidade da imensa porta vertical, que se abria lentamente à chegada de uma viatura, para se fechar de seguida, como se estivéssemos a entrar num conto de fadas. E assim fomos tragados por aquela gruta e quando na outra extremidade a porta se abriu, deparamos com o bonito fiorde, onde ao fundo, adormecida nas encostas dos rochedos escarpados, descansava na neve, a cidade de Siglufjördur.
Siglufjördur adormecida
Conhecendo Siglufjördur
Siglufjördur é uma pequena cidade situada no fiorde que lhe dá o nome. É um sereno recanto, onde raramente o vento sopra, fazendo da cidade um simpático, bonito e acolhedor porto de abrigo. Observá-la no verão é tão agradável como no Inverno. Aliás, esse é um dos encantos da Islândia. É que o país, consoante a estação, encerra belezas tão extremas, como possuidoras de um encanto dificilmente explicável. Os recantos têm de ser vivenciados e sentidos.
“Ocupada” 2 vezes pelos noruegueses, a primeira em 900 DC pelo viking Thórmodur Rammi e a segunda, a partir de 1903, com a construção da mais importante cidade piscatória de arenque, de toda a Islândia, Siglufjördur vive na recordação dos seus tempos áureos. Actualmente tem cerca de 1500 habitantes, mas teve já mais de 3000 habitantes.
Durante dezenas de anos, toda a sua vida centrou-se na captura de arenque e no seu processo – a salga do peixe e a produção de óleo e das conservas em lata, tornando-se num dos mais importantes portos do país.
Em alguns anos a exportação de arenque e seus derivados, representaram mais de 20% do total das exportações islandesas. Nesses anos, a cidade chegou a ter mais de 3000 mil habitantes, entre fábricas e habitações, sendo impressionante ver os filmes retratando a vida neste período. Uma vida dura, de muito trabalho, tanto para os homens como para as mulheres. Enquanto os homens trabalhavam no mar, às mulheres incumbia a salga do peixe, bem como o trabalho nas fábricas. Nos períodos de grande captura, chegavam a trabalhar mais de 24 horas. Contudo, as mulheres chegavam, muitas vezes, a receber um salário superior ao dos homens.
Com o desenvolvimento da aventura da pesca do arenque e a consequente chegada e fixação de colonos, a atmosfera fez de Siglufjördur a Klondique do Atlântico. A cidade atraiu os especuladores da indústria do arenque, originando fortunas e perdas tão repentinas quanto fugazes, consoante os caprichos dos booms e escassez dos cardumes.
Durante vários anos este recanto da Islândia foi a “Meca” de milhares de trabalhadores e assalariados à procura de trabalho.
Se é verdade que esses tempos fazem parte do passado da cidade, não é menos verdade que são a grande saudade do presente. Uma saudade tão grande, quanto a memória alcança.
vista do porto de Siglufjördur
O Herring Era Museum
vídeo do Herring Era Museum
Para se ter um excelente museu não é preciso ter as dimensões de Serralves. O mais importante é a pesquisa, a organização, a disposição e a capacidade de comunicação. O Herring Hera Museum tem tudo isso, sendo um dos mais interessantes que visitei na Islândia. É o mais importante museu marítimo e industrial do país e condecorado com o Iceland Museum Award 2000, bem como com o Micheletti Award - melhor novo museu industrial da Europa em 2004.
Em nenhum outro local se pode perceber tão bem a Islândia e a sua história. No fundo, o museu retrata a história do país, a sua dureza e disponibilidade. A aridez e o trabalho árduo. A pesca em condições extremas como condição praticamente única, motor de desenvolvimento da economia e de um país.
Tudo isto reflecte-se, ainda nos dias de hoje, na forma do islandês ser e relacionar-se.
O Herring Era Museum é composto por 3 edifícios.
O Roaldsbrakki é o primeiro, sendo uma casa construída em 1907 e era uma das estações de salga do arenque. Em 1916 produziu mais de 30.000 barris de arenque em salga e no R/C situava-se a linha de salga e a loja.
No 1º piso situava-se o escritório onde os trabalhadores recebiam o salário semanal e onde se encontrava a engrenagem, bem como a especiarias usadas para marinar o peixe. Foi posteriormente convertida nas acomodações dos trabalhadores.
No 2º piso eram os quartos, tanto masculinos como femininos e uma pequena cozinha.
No sótão ficava algum peixe, bem como o equipamento usado necessário para a salga do arenque.
O segundo edifício do Museu é a Factory onde se situava toda a maquinaria para produzir o óleo, bem como as conservas, posteriormente exportadas para mercados como a Suécia, Dinamarca, Finlândia, Rússia, Alemanha e EUA. Uma indústria importante para a Europa, nomeadamente durante o período de escassez entre as duas grandes guerras.
Por fim, resta falar no último dos edifícios que completa o museu. Trata-se da Boathouse. Aqui, poderão ser vistos os barcos usados na pesca do arenque, bem como passear na recriação do porto, de forma a sentir a atmosfera dos anos passados.
A pequena ilha de Drangey à esquerda e a ilha de Málmey à direita. Ambas no Skagafjördur
Depois da noitada em Siglufjördur ter-se estendido pela madrugada a viagem do segundo dia começou depois do meio-dia. O sol escondeu-se por cima das nuvens que acordaram a cidade com doces flocos de neve, tocando as casas levemente. Assim, desistimos de subir até à estação de esqui, já que não iríamos conseguir desfrutar da vista sobre o fiorde, perdida no modorrento nevoeiro.
Seguimos para o Skagafjördur em direcção ao oeste islandês. Atrás, em tons serenos, ficava Siglufjordur, guardada em segredo, pela porta do túnel que se cerrava nas nossas costas.
O Skagafjördur situa-se entre o maior conjunto montanhoso do norte da Islândia, o Tröllaskagi (península dos gigantes) e o cabo Skagi. Salpicado por alguns centros piscatórios, é uma das mais prósperas regiões agrícolas do país, com diversas quintas, onde se destacam a criação de ovelhas, cavalos e a produção de lacticínios.
Aqui se poderão fazer belos passeios no cavalo islandês, uma raça que se caracteriza pela sua enorme resistência. Este cavalo de dimensões semelhantes ao pónei (chamar de pónei a este cavalo seria ofensivo para qualquer islandês) tem a particularidade de não limitar os seus andamentos aos habituais passo, trote e galope. Por não ter sido treinado para as lides da guerra manteve duas formas de andar, o tolt e o pace, que os outros, há muito perderam. Eu não montei ainda nenhum destes cavalos. Mas dizem ser o tolt, um andamento muito rápido e suave que faz as delícias de quem o monta.
O pequeno, robusto, bonito e sorridente cavalo islandês, foi companheiro de tropelias na neve e motivo de várias paragens durante a viagem.
Quando chegamos a ao Skagafjördur a primeira imagem com que somos recebidos e que nos deslumbra é a visão da ilha de Málmey, onde parece que a estrada vai desembocar. Com a aproximação, reparamos que a água do fiorde nos separa desta estreita ilha de lava, com cerca de 4 km de extensão e de penhascos íngremes.
Mais ao longe, perdida no meio do fiorde, repousava Drangey. Este rochedo é o palco de uma das sagas islandesas. As sagas são as mais famosas histórias em prosa da literatura islandesa e relatam os feitos e acontecimentos vikings, ocorridos durante os séculos X e XI. Segundo esta saga, o rochedo foi o ultimo refugio do proscrito guerreiro islandês Grettir Ásmundarson (Grettir the strong), que viveu os últimos anos de vida na companhaia do seu irmão Illugi e do seu escravo Glaumur, antes de ser assassinado por Þorbjörn Öngull.
Reza a lenda que a origem da pequena ilha rochedo se deveu à tentativa de 2 trolls (gigantes da mitologia nórdica) atravessarem o fiorde pela noite. A meio da travessia foram surpreendidos pelos primeiros raios de sol da alvorada, ficando petrificados. Drangey é a vaca que os acompanhava, o pequeno rochedo Kerling a suposta mulher troll e o gigante masculino, o rochedo Karl, há muito foi tragado pelas águas.
Todas estas ilhas rochedo de origem vulcânica (a não ser que acredite em trolls), são pequenos santuários de aves entre Abril e Setembro. Durante esse período poderão ser observados e fotografados espécies como o Puffin (papagaio do mar), o guillemot, o corvo, o falcão, entre outros. De igual modo, esta é uma região a visitar pelos amantes do rafting, devido aos rápidos dos rios que desembocam no fiorde.
A viagem prosseguiu com uma pausa na vila piscatória de Hofsós. Infelizmente não tivemos tempo para visitar o Centro de Documentação de Emigração nem a exposição acerca de Drangey. Mas eu voltarei, não tenho dúvidas.
As últimas paragens foram em Hólar e Saudárkrókur.
Hólar é a mais antiga diocese do norte da Islândia (foi fundada no século XII).
Saudárkrókur é (depois de Akureyri) a maior cidade do norte da Islândia (2700 habitantes).
São dois locais que merecerão postagens futuras e para não vos massacrar mais, afinal este post já leva mais linhas do que habitual, encerro o relato desta viagem.
Espero que os vídeos e as fotos consigam transmitir algumas das sensações que só a natureza e os locais visitados conseguem transmitir.
Chegamos cansados a Akureyri. O cansaço de um corpo moído, mas feliz.
Foi em Outubro passado que recebi o primeiro email do mentor do projecto Takk_Iceland09.
De lá para cá, parece que as coisas ganharam forma, tendo solidificado a base de sustentação. Organizaram-se, delinearam e divulgaram timings e iniciativas, Distribuíram os papéis, sem andarem aos papéis, nem ficarem só por papéis (confusos com tanto papel? Me too…)!
O Projecto Takk_Iceland09 é um sonho de um grupo de fãs dos Sigur Rós que está a organizar uma viagem aos lugares míticos da Islândia, retratados no filme Heima, sobre os concertos da banda islandesa.
Este grupo de fãs organizou-se e as pessoas trabalham em prol do projecto definindo o roteiro, angariação de fundos, organização da viagem e actividades takk_iceland09 (festas, tertúlias, projecção de Heima, festivais de cinema e poesia Islandesa).
A Passenger list engloba dezenas de fãs.
A todos os interessados, fica em baixo o blog da projecto, onde poderão recolher toda a informação.
Desde a viagem de regresso à terra do gelo e do fogo que pretendo postar sobre o colapso dos bancos do país, ocorrido em Outubro passado. Da intenção à publicação passaram mais de 2 meses, transformando este num post adiado.
Não tenho formação em economia e sendo assim, esta é a dissertação possível, redigida por um leigo. Mas todo o ser humano é imbuído de inteligência, sensibilidade e percepção e se juntarmos a isso, alguma atenção e capacidade de leitura, poderemos desenvolver um sentido crítico que permita uma abordagem pessoal (subjectiva) da temática.
Não acredito que as ciências sociais, mesmo recorrendo ao máximo rigor metodológico, consigam ultrapassar a barreira da subjectividade. É que as instituições que produzem ciência são constituídas por pessoas, que apesar de todo o esforço, estão condicionadas pelas suas vivências individuais. Os paradigmas, estão assim sujeitos a um prazo de validade, fruto da época e regulados pelas convicções de quem faz e produz ciência (e não só!).
A história tem-nos demonstrado que a mutação é uma constante, não sendo as verdades eternas ou absolutas.
Resta-nos acreditar que a Inteligência e a Cultura faz-nos seres humanos mais disponíveis e menos rígidos, prontos a dispensar a estilística retórico-dialético-demagógica, que normalmente é servida com vestes de presunção.
O colapso económico
O resto do mundo olhava com desconfiança para o milagre económico islandês e estes, do cimo da sua sobranceria, riam-se disso. Mas os meses de Setembro e Outubro de 2008 vieram demonstrar a fatalidade de um capitalismo desregrado, da especulação e do crédito fácil.
A crise terá começado com as sub-prime americanas (hipotecas de alto risco revendidas como produtos de investimento para o mundo). Quem investiu nesses produtos “tóxicos”, aliciado por juros mais altos, mas frutos da especulação de um sistema sem regras, acabou por perder tudo. Ao primeiro alarme de crise, a desconfiança dos bancos relativamente a outros cortou as linhas de crédito entre eles e depois foi a bola de neve começar a rolar…
O problema islandês explica-se facilmente. Os bancos cresceram desproporcionalmente à economia real do país. Com sucursais e clientes em diversos estados, o seu património chegava a ser quase 12 vezes o PIB (produto interno bruto) da ilha.
A Islândia é um país super consumista onde todas as pessoas (independentemente da idade) tinham e compravam a crédito.
Quando as linhas de crédito entre os bancos internacionais deixaram de funcionar e o sistema bancário do país começou a ter dificuldades de financiar as operações, foi o ruir da economia islandesa, já que o “pobre” estado era uma formiga à beira da dimensão e do volume de clientes e depósitos dos bancos do país.
Só que aqui entram alguns erros para ajudar na “festa”. Erros que a mim não me admiraram nada, dado que vem na sequencia de um post anterior (Considerações sobre a Islândia:http://iceland-views.blogs.sapo.pt/8696.html). Nesse post, editado antes do colapso económico do país, dava conta da sobranceria e arrogância islandesa, tão ao jeito de quem vive fechado na sua ilha, urrando como vikings com roupas do século XXI. O Islandês médio gosta de dizer que os europeus (leia-se União Europeia) são demasiado vagarosos. Para um islandês é difícil entender que é preciso saber parar e reflectir, com o intuito de rentabilizar e fazer bem.
Um país construído através da disponibilidade física, necessária para aquela que ainda é a principal actividade dos país, a pesca, a que se junta as exigentes condições climatéricas do passado sem o conforto das ultimas três décadas e o isolamento relativamente ao mundo que se reflecte num certo eremitismo social, condicionou o desenvolvimento de certas técnicas de subtileza e de polimento social. É através da Arte e Cultura que o islandês tenta ir buscar essa beleza e graciosidade que lhe falta. Uma amiga brasileira que visitou a Islândia no último verão, numa explicação de momento, sugeriu que as montanhas mais áridas necessitam de proteger as poucas flores que as embelezam. A Arte e a Cultura são as flores que embelezam o dia a dia das frias relações sociais na Islândia. Assim, essas manifestações tem sido de crucial importância, embora muitas vezes sejam mais devoradas do que contempladas. O Islandês na sua aura de "destemeridade" (e isso eles são!) age como estando sempre correcto! Existe algo de primário nesse comportamento, lembrando-me o finório português que pegando no automóvel, faz o IC1 Póvoa – Porto em 15 minutos, pé a fundo no acelerador. Chegado ao destino final, na inconsciência do perigo de tal forma de conduzir, vai berrar entusiasmado a sua saga, julgando ser o maior do bairro que para ele é a representação do mundo.
Mas verdade seja dita, para o islandês não existem perigos, ou não se tratasse de um sobrevivente da (sua curta) História.
Quando se pode olhar o mundo, entre garrafas de cervejas, num resort mediterrânico, há uma tendência para a arrogância – não compreendemos que, visto na distância de um resort (ou da Islândia), tudo se torna indistinto e acabamos por imaginar as coisas em vez de vê-las. Uma viagem às cidades e aos países reais, mesmo que nas férias, seria uma boa terapia para estes intrépidos vikings.
Mas o erro que ajudou à festa foi a desnecessária frente de batalha com os ingleses. Com aquele jeito de quem ergue a espada, o primeiro-ministro Geir H. Haard, resolveu dar o "calote" nos depositantes britânicos (e não só), anunciando na televisão, após a nacionalização dos bancos, que não pagaria um euro aos súbditos de sua majestade.
Sabemos que existem coisas que podemos pensar, mas nunca dizer. Um país na bancarrota necessitaria de uma diplomacia mais sagaz.
Ser polite nunca foi o forte dos vikings. Acontece que o primeiro-ministro britânico G. Brown não se atemorizou com este acto destemido (a guerra do bacalhau não se repetiu desta vez) e recorrendo à lei anti terrorista britânica, confiscou todo o património dos bancos islandeses na Inglaterra. Contudo, a acção britânica não ficaria por aí. A Islândia na bancarrota necessitava de dinheiro urgente, para que a ilha não se afundasse por completo. O gigante britânico facilmente jogou a sua diplomacia nas instituições internacionais (e sabemos que os britânicos não dão ponto sem nó). O resultado foi o FMI ter desbloqueado rapidamente um empréstimo no valor de 2,1 mil milhões de dólares, mas só depois de o governo islandês ter chegado a um acordo com a Inglaterra, a Holanda e a Alemanha e ter assumido restituir os depósitos de clientes estrangeiros nesses países, num máximo de 26 mil dólares por cliente. O valor total que o governo islandês terá de pagar a esses países ronda os 4.3 bilhões de dólares. Sabendo que a Islândia não possui esse dinheiro, a Inglaterra, Holanda e Alemanha irão emprestá-lo de forma a ser usado para pagar as restituições.
Assim, de um dos países mais ricos do mundo por habitante, a Islândia passou para um dos países mais endividados do mundo por habitante!
Embora descontextualizando, recordo a frase de Muhammad Yunus, Prémio Internacional Símón Bolivar em 1996 e fundador do Banco Grameen, que numa reflexão no seu livro “O Banqueiro dos Pobres” diz: “… É extremamente difícil ao devedor libertar-se do ónus do empréstimo. Habitualmente, é obrigado a pedir emprestado outra vez para reembolsar o empréstimo anterior, e, por fim, a única saída é a morte.”
O dia em que os islandeses começaram a lutar
Protestos em 8 de Novembro, em frente ao parlamento em Reykjavík
Quando à pouco mais de 1 ano cheguei à Islândia, uma significativa parte do trabalho da polícia era dedicado aos distúrbios e violência, originados pela ingestão excessiva de bebidas alcoólicas no país, bem como ao controle do tráfego rodoviário e dos respectivos limites de velocidade.
Os agentes da autoridade não usavam armas de fogo e embora o número de roubos e assaltos em Reykjavík estivessem a crescer, não tinham a expressão actual. Muitas das viaturas ainda passavam a noite com as portas destrancadas. Apesar disso, o crescente uso de estupefacientes e a pequena associação criminosa (esta residual e atribuída exclusivamente a emigrantes lituanos e polacos) era já uma realidade.
Os islandeses nunca foram de grandes manifestações. Se recordarmos, os protestos do Saving Iceland (ver post sobre o futuro da economia islandesa e a polémica do alumínio: http://iceland-views.blogs.sapo.pt/4127.html) contra a instalação da indústria transformadora das fábricas de alumínio, que vinha a afectar o equilíbrio ecológico da ilha, nunca conseguiu mobilizar mais do que um punhado de pessoas.
Quando pela força das consequências, os islandeses tomaram consciência que a sua economia era um mau filme de ficção, começaram a manifestar-se todos os sábados, frente ao parlamento em Reykjavík.
A data de 6 de Outubro de 2008, ficará na história como o dia em que as manifestações de protesto contra o governo e o presidente do banco da Islândia se tornarem inevitáveis. Foi o dia em que o primeiro-ministro fez o discurso do desastre, do crash da economia islandesa. A partir dessa data, todos os sábados, grupos de pessoas começaram a manifestar-se em frente ao parlamento em Reykjavík, num crescendo proporcional ao aumento do desemprego e ao desaparecimento das suas economias. A primeira manifestação contou com 500 pessoas e em 22 de Novembro, foram cerca de 7000 pessoas (o país tem pouco mais de 300 mil habitantes).
As manifestantes eram de todas as idades e os ajuntamentos englobavam desde pró americanos até à esquerda mais anti americana.
Os protestos tinham início às 16 h e tomates, ovos, molhos de hambúrguer e outras iguarias passaram a ser constantemente arremessadas contra o parlamento, chegando a partir as janelas (pode não parecer nada de relevante para quem está já familiarizado com protestos em outros países, mas acreditem que na Islândia isto era algo de novo!). Num acto de provocação, um dos jovens subiu para a varanda do parlamento e colocou no mastro uma bandeira com a inscrição Sold to the IHF for 2 Billion Dollars.
A polícia foi tendo o cuidado de não intervir activamente, consciente que as coisas poderiam facilmente sair do controle. Apesar disso, Um grupo de intervenção das forças policiais denominado the Viking Squad esteve sempre alerta, retirando das esquadras coletes, gás pimenta, e outros utensílios habituais nos grupos de choque. Todo esse material, por fim sacudiu o pó que durante anos foi acumulando dentro dos armários.
Entre os vários episódios ocorridos nestas manifestações, destaque para o acto audacioso de um jovem do Saving Iceland, que subiu ao telhado do parlamento e hasteou a bandeira da cadeia de supermercados Bónus. Esta cadeia de supermercados é parte do império de Jón Ásgeir Jóhannesson, o maior empresário na área da alimentação e que detém parte dos media. Ele é uma das personagens centrais do colapso, na medida em que era o maior accionista do Glitnir, o primeiro banco que foi nacionalizado.
No dia 1 de Dezembro de 2008 comemorou-se os 90 anos da Independência do estado islandês, apesar de apenas se ter tornado república em 1944. Milhares de pessoas concentraram-se junto à estátua de Ingólfur Arnarson, o primeiro colonizador da ilha. Depois dos discursos habituais, optaram por atribuir as maiores culpas da situação a David Oddsson, o presidente do banco da Islândia, definitivamente o homem mais odiado no país actualmente.
Um grupo de dezenas de manifestantes resolveu então ir manifestar-se para o banco da Islândia e quando lá chegou deu de caras com 3 policias a guardar a porta de entrada. Como habitualmente começaram a atirar tomates e ovos, colorindo a entrada do Banco e os desgraçados agentes da autoridade.
Surpreendentemente, os agentes policiais abandonaram o seu posto, sob os aplausos da pequena multidão. Só quando os manifestantes subiram ao segundo andar se aperceberam que tinham aplaudido cedo demais. Por detrás da grossa porta de vidro, 30 polícias equipados, serviam de barreira, impedindo a passagem do ruidoso grupo. Nessa altura, é comunicado aos manifestantes que a manifestação tinha sido declarada de ilegal e que iriam usar gás pimenta para dispersar o ajuntamento, caso eles não o fizessem de livre iniciativa. Os sprays de gás foram utilizados, acabando muitos dos manifestantes no exterior agarrado aos olhos macerados.
Uma das tiradas mais interessantes de um manifestante foi: They won`t look into your eyes!. Podemos viver em guerra, mas nunca deixar de abraçar o humor!
Na passagem do ano um grupo de aproximadamente 500 manifestantes revoltados conseguiu silenciar um programa de televisão em directo no hotel Borg, com a presença do primeiro-ministro, queimando os cabos da emissora.
A intervenção policial, recorreu ao gás pimenta, enquanto os manifestantes respondiam com balões de água e foguetes (na passagem do ano é tradição todas as famílias comprarem foguetes e bombardear os céus entre as 21 h e as tantas da madrugada).
É engraçado ver no vídeo em anexo, os cozinheiros e restante staff do hotel a impedirem os manifestantes de entrar. É preciso contextualizar que este é um país de 300 mil habitantes, onde todas as pessoas, quando não se conhecem, têm pelo menos algum conhecido em comum. Ou seja, dos dois lados da barricada estão pessoas que no dia seguinte estarão a tomar uma cerveja juntos!
O que vale é que os Vikings batem-se num dia, e no outro confraternizam! Like in the past!
Protestos no hotel Borg em 1 de Janeiro de 2009
A queda do Governo e a crueza dos números de desempregados
Ao fim de tantos protestos o governo caiu (o governo de coligação de centro-direita englobava o partido da Independência e os sociais democratas). O primeiro-ministro Geir Haarde, anunciou ontem o que à muito era esperado. Já uns dias antes, tinham sido marcadas eleições antecipadas para 9 de Maio (as eleições numa situação normal seriam apenas em 2011).
O Presidente do país convidou, entretanto, os sociais-democratas, em rota de colisão com o partido de Geir Haarde na coligação do governo, a coligar-se com a esquerda, nomeadamente com os Verdes. É possível que as eleições possam vir a ser antecipadas novamente, afinal a Islândia é um país à deriva.
Neste momento, o único a assumir politicamente culpas da situação foi o Ministro do Comércio que no seu último acto demitiu o presidente do Fjárlmalaeftirlit, a Autoridade de Supervisão Financeira, responsável pela supervisão da expansão dos bancos (em Portugal está sobre a tutela do Banco de Portugal).
Entretanto, o desemprego tem vindo a aumentar rapidamente. Num espaço de um ano passou-se dos residuais 0,5% para mais de 6%. Em 27 de Janeiro de 2009, no Instituto de Emprego estavam inscritos mais de 12.800 pessoas. Grande parte em Reykjavík e perto de 800 em Akueryri). Se estes números não são maiores é porque o sector da construção civil que praticamente parou, era constituído por mão-de-obra estrangeira. Após o mês de Outubro, por falta de trabalho, retornaram aos seus países de origem.
Ainda de referir, que o aumento do desemprego e a desvalorização brutal da krona islandesa (Se trocar para euros, neste momento o meu salário é praticamente metade do que ganhava à um ano), faz com que alguns islandeses comecem a emigrar.
Somando estas duas variáveis, compreende-se o motivo de o numero de desempregados não ter ainda atingido os dois dígitos.
De referir também, que a empresa Creditinfo, publicou num recente artigo que cerca de 3500 empresas estão em risco de falência no ano de 2009, representando cerca de 11,5% das empresas registadas no país (num universo de aproximadamente 30.000 empresas registadas). Além disso, muitas das empresas sobreviventes irão ter de reduzir custos e inevitavelmente, despedir trabalhadores.
O papel do Estado
Uma das coisas mais admiráveis na Islândia é a protecção social e do trabalhador. Além do respeito (e grande receio) que existe por parte das empresas relativamente ao eficaz sindicato dos trabalhadores, o estado desempenha um papel importante nesta matéria.
Aquela maquinazinha, normalmente colocada numa parede, que em Portugal é conotada, muitas vezes, como controlador do trabalhador, na Islândia parece servir mais, para defender o mesmo trabalhador. É prática comum aqui receber-se à hora. Cada minuto fora do horário normal de trabalho (9 h – 17 h) é pago como hora extra. No fim de semana, o valor percentual da renumeração aumenta, recebendo-se ao Domingo, 35% acima do vencimento normal, em cada hora de trabalho.
As empresas respeitam isto, até porque a fiscalização e o sindicato dos trabalhadores, à mínima queixa de um funcionário, aparecem na empresa. O Estado, a fazer as contas, das pessoas que emprega, é também de uma correcção exemplar. Oxalá o despoletar da crise não altere o que eu considero exemplar no país.
Como referi acima, ao primeiro pé colocado fora da ilha, o que eu recebo hoje em dia na estância de esqui em Hlidarfjall, desvalorizou para metade. Mas não foi só a desvalorização da moeda que afecta os números do meu ordenado, no fim de cada mês. É que o Estado está a cumprir o seu papel, mesmo que em meu prejuízo. Vou passar a explicar:
Com o aumento do desemprego, a politica que tem vindo a ser adoptada pela Câmara Municipal de Akureyri (a estância de esqui é pertença da edilidade), é a de redução das horas de trabalho dos seus funcionários, de forma a empregar o número máximo de pessoas. Ou seja, o sacrifício de alguns, que com essa medida sofrem uma redução do ordenado ao fim do mês, em prol de mais pessoas terem as suas necessidades básicas (alimentação, possibilidade de pagar a casa, etc…) asseguradas. Desta forma, pretende-se que a população tenha um dia a dia normal, tendo em conta as condicionantes de um colapso económico.
Esta tem sido a politica do falido estado islandês, que mesmo de saúde tão periclitante, recorrendo a uma redução de ordenados e das horas de trabalho de alguns, não só tenta não despedir funcionários, como procura empregar o maior número de pessoas. Assim, cumpre o seu papel de protecção social e é estandarte de esperança, daqueles que sem culpa alguma, foram apanhados pela crise económica, despoletada por alguns, e da qual o próprio estado não pode deixar de assumir responsabilidades.
Sei que sou prejudicado, mas sei também que numa altura de dificuldades seria duplamente egoísta e imoral, a individualidade sobrepor-se ao colectivo.
O Mito
À alguns dias atrás, no telejornal em Portugal, passou uma reportagem, em que se falava do aumento das provocações e agressões a estrangeiros na Islândia. Não vou abordar neste post a temática do racismo. Em situações de instabilidade social e aumento do desemprego, inevitavelmente os emigrantes são o elo mais fraco. Aqui e em qualquer parte.
A verdade é que pouco antes do colapso uma equipa da TV Record brasileira veio à Islândia fazer uma reportagem. No final, o que foi para o ar foi um paraíso irreal que só existe na cabeça de quem desconhece a realidade. A ausência do vivencial, leva as pessoas a imaginar maravilhas que só existem quando olhamos o outro por uma janela. Descer à rua mostra-nos sempre outra realidade.
Creio que existe um mito sobre os países nórdicos. No caso islandês, este é um país nórdico atípico. Mas quem leu alguns posts anteriores já conhece algumas das minhas opiniões.
A baixa densidade populacional, é para mim uma das variáveis que permitiu aos países nórdicos apresentar uma boa qualidade de vida, nomeadamente na variável económica.
Thomas Robert Malthus, escreveu no século XIX, dois ensaios sobre o princípio da População, defendendo que o excesso populacional era a causa de todos os males da sociedade, já que a população cresce em progressão geométrica e os alimentos em progressão aritmética. Queria isto dizer que a produção de alimentos não acompanharia as necessidades que o crescimento geométrico da população iria sentir.
A Islândia tem um território 10% superior a Portugal e apenas 300 mil habitantes. Imagine-se 11 milhões de habitantes na ilha e as inevitáveis consequências sociais, económicas, bem como a interferência castradora do meio ambiente.
Todos os países nórdicos tem uma reduzida densidade populacional. Contudo, as taxas de suicídio são das maiores no mundo.
Somos seres eminentemente sociais e quando se fala de economia na televisão, parece que por vezes, todos estão esquecidos que estão a falar numa ciência social.
Portugal está debaixo da neve entre a alegria e o caos. Não posso deixar de sorrir quando uns meros floquitos (às vezes mais no estado liquido, outras vezes mais em formato de gelo) provocam a paralisação geral. Para uns, o estado deveria pagar pela insensatez dos pequenos acidentes. Para outros, foi a folia geral!
Já agora, ficam imagens da neve em Akureyri e nas montanhas que acompanham o belíssimo fiorde da cidade onde me encontro. As escolas não fecham, não vejo acidentes nas ruas e tudo segue a seu curso normal (mesmo com o estigma da bancarrota)...
Alguém já viu nevar em Portugal ou estarei a ser maldoso?
Quem acompanha este blog sabe da importância da actividade musical na Islândia, tanto pela número de academias de música e arte, como pela quantidade de concertos e festivais que coloca o mercado interno em actividade constante, independentemente das áreas e estilos musicais.
Chegando a esta altura do ano, e seguindo aquilo que é uma constante na imprensa mundial, elegem-se os melhores discos dos últimos doze meses.
Sendo assim, vou deixar aqui a lista dos melhores discos islandeses de 2008 do Fréttablaðið, um dos diários de referência do país.
1. Sigur rós – Með suð í eyrum við spilum endalaust
2. FM Belfast – How to make friends
3. Dr. Spock – Falcon Christ
4. Lay Low – Farewell good night`s sleep
5. Mammút – Karkari
6. Sing Fang Bous – Clangour
7. Emiliana Torrini – Me and Armini
8. Retro Stefson – Montaña
9. Celestine – At the borders of Arcadia
10. Reykjavík! – the blood
Como fiz uma pequena pesquisa de forma a juntar a opinião de outras entidades (individuais e colectivas) poderei realçar outras edições do ano que findou.
Entre elas estão Evil Madness – Demoni paradiso; Bang Gang – Ghosts from the past (já falei sobre eles neste blog. Ver (http://iceland-views.blogs.sapo.pt/8066.html); Bragi Valdimar og Mamfisma Fian – Gilligill; Hugi Gudmundsson – Apocrypha; Ísafold – All sounds to silence come; the Viking Giant Show – the lost garden of the hooligans; Pikknikk – Galdur; Jeff Who? – Jeff Who? (ver neste blog em http://iceland-views.blogs.sapo.pt/9440.html), entre outros.
Os FM Belfast ocupam o segundo lugar da lista das melhores edições de 2008 com o disco How to make friends. O grupo de Reykjavík vagueia pelas ondas do Electro/Indie/House e o seu disco não deixa de lembrar-me, muitas vezes, os Gus Gus (ver post neste blog: http://iceland-views.blogs.sapo.pt/2513.html).
Actuaram na Casa da Música em Fevereiro, escrevendo no seu site “Porto were great great great. In Portugal we played in this weird house. It was an architectural wizardry of some sort. We managed to get lost in the building at least four times. All the people that came to our concert were so fabulous. The even danced so we decided to give them medallions. Múm and Bloodgroup played as well and they were both fun to see”.
Neste vídeo o tema é o delicodoce e retro-aveludado Par avion. Se pretenderem conhecer mais, fica o my space e o website dos FM Belfast.
Os votos de um 2009 pleno de realizações, com um zumbido nos vossos ouvidos!
Lay Low é a banda alter-ego da jovem cantora folk/blues/country Lovisa Elisabet Sigrunardottir que lançou o seu segundo álbum em 2008, ficando em 4º lugar da lista do Fréttablaðið.
No vídeo o tema By and By, aqui numa gravação em directo na igreja at Frikirkjan em Reykjavik.
Para quem quiser pesquisar mais, fica o my space e o respectivo website.
Húsavík situada na baía de Skjálfandi, águas do oceano glaciar Árctico
Quando em Janeiro deste ano regressei à Islândia, fui para o norte, onde nunca tinha estado. Conhecer os locais através de leituras e fotografias, é muito diferente do que vivenciá-los, sentindo o seu pulsar. Neste país, cada espaço tem uma energia própria e uma amplitude que nos faz parar, para melhor interiorizarmos a natureza. Em cada recanto, a relação entre a sobrevivência do homem, a procura de melhores condições e a natureza é admirável.
Tinha passado o natal com a família no Porto e depois da passagem do ano tinha seguido para Valência. Em Portugal e em Espanha tinha estado envolvido no conforto dos afectos e rodeado pela secular história urbana da humanidade. Já na Islândia, em cada floco branco que se derrete no rosto, é o silêncio da natureza que vem afagar-nos.
São 6 horas de viagem de camioneta, para percorrer os cerca de 450 km que separam Reykjavík de Akureyri. Em Janeiro, são 6 horas sob o espesso manto branco que parece adormecer a ilha. A luz natural é quase fugaz e o sol, escondido sempre atrás das montanhas, apenas nos deixa ver uma luz difusa, algures entre o cinzento e o azul-escuro. É na magia do ocaso que elfos, fantasmas e trolls se atrevem a sair das colinas e rochas que habitualmente lhes serve de esconderijo. É que o sol do verão não os protege. Antes os cega e petrifica.
Assim, todos eles se multiplicam durante o Inverno islandês.
A igreja de Húsavík É uma das mais atraentes igrejas islandesas. Foi desenhada pelo arquitecto islandês Rögnvaldur Ólafsson e construída em 1907, usando madeira norueguesa. Tem uma capacidade para 450 pessoas e quando foi construída, a povoação não tinha mais de 500 habitantes. No altar existe uma impressiva pintura de 1931, pelo pintor e agricultor Sveinn Pórarinsson, representando Lazarus a erguer-se da morte.
Quando cheguei a Akureyri tinha o meu amigo Matin à espera. Tinha trabalhado com ele antes do natal em Reykjavík. O Matín tinha-se mudado para o norte, depois de ter aceite um convite para ser o chefe de cozinha num restaurante em Húsavík. Sendo assim, fui com ele passar 3 dias à capital da observação das baleias (whale Watching), como é denominada a povoação.
Husavík é uma pequena cidade situada no norte da Islândia, na baía de Skjálfandi e com uma população 2500 habitantes. O nome significa baía-casa e foi escolhido por Gardar Svarvasson numa viagem em 850 DC, ainda antes do primeiro colonizador oficial da ilha.
A cidade destaca-se pela sua característica igreja, rodeada por casas de telhados coloridos em frente ao porto.
Husavík vivia exclusivamente da indústria pesqueira, mas o turismo tem vindo a crescer.
Os islandeses são na sua maioria, contra a lei internacional que proíbe a captura e matança destes mamíferos. Mas neste caso, o apurado faro para o negócio de uma família, descobriu que afinal as baleias podem, através do turismo, impulsionar mais a economia local do que da matança. Assim, restauraram e adaptaram 3 barcos de pesca e passados 13 anos e mais de 6 mil viagens, Húsavík transformou-se na capital europeia da observação das baleias (whale watching).
A North Sailing, empresa criada por uma família com o intuito de desenvolver o turismo na cidade, reconstruiu e adaptou 3 barcos de pesca para a observação de baleias (whale watching). O primeiro foi o Knörrinn (4,12 m de comprimento e uma capacidade de 46 pessoas). Seguiram-se o Bjössi Sör (4,34 m e capacidade de 56 pessoas) e o Náttfari (5,30 m e capacidade de 90 pessoas). Náttfari foi um viking sueco que ficou perdido com 2 escravos na baía que abriga Húsavík, ainda antes da colonização oficial da Islândia. Como foi de forma involuntária, não é considerado o primeiro habitante e colonizador do país. Obviamente, esta interpretação oficial defendida pelos políticos e académicos não é corroborada pelos habitantes da cidade.
Neste vídeo, podemos observar as baleias através dos barcos pejados de turistas. Assim, fica-se com uma ideia do passeio turístico para observação destes mamíferos na baía de Skjálfandi.
Fiz pouso 2 noites em casa do Matín que me revelou alguns segredos da cidade. Alguns locais nos arredores que os naturais não gostariam que fossem invadidos por turistas, mantendo-os para usufruto próprio, como se de espaços sagrados se tratassem. Mas também nós em nossa casa, mantemos algumas divisões mais resguardadas das visitas. Um desses locais, é um grande tanque que fica no topo do Húsavikurfjall (417 m) e que recebe agua do interior da terra a mais de 36 º C. Imagine-se o que é estar à noite, a tomar banho num tanque de agua geotermal, rodeado de neve e bebendo uma cerveja com um amigo. Pois é, tive esse privilégio debaixo do olhar atento das estrelas.
Não queria acabar este post sem referenciar os 3 museus da cidade:
O Safnahúsid Museum que inclui o museu etnográfico, o museu marítimo, a colecção de história natural, a colecção de fotografias, a colecção de pinturas e os arquivos do Distrito.
Por último o Husavík Whale Museum (museu das baleias) fundado em 1977. Vários jovens cientistas de outros países acabam por fazer estágio neste museu que tem um papel informativo relevante. O seu corpo científico acaba por servir-se, muitas vezes, dos barcos que passeiam os turistas, como plataforma de estudo das baleias no seu habitat natural.
Com as várias fotos que aqui deixo, os vídeos, as informações e impressões, penso ficarem com uma ideia sobre este local, ao qual voltarei em breve.
Gaumli Baukur é o nome do restaurante bar do qual o Matín é o chefe da cozinha. É uma casa em madeira nórdica construída em 1843, como residência de Mr. Shulsen, o magistrado do Distrito. Entre 1884 e 1904 foi um popular restaurante e em 1960 destruída por um incêndio. Reconstruída em 1998 é pertença da família que explora o whale watching. Na reconstrução da casa não foram cortadas árvores. A madeira, bem como todos os instrumentos náuticos no seu interior, é um legado do mar que sedimenta os seus despojos ao longo da baía.
Chegado o inverno, a ilha vestiu-se de noiva, deslumbrando-nos a cada instante com o charme da solitude épica. Os tons púrpuras do céu, revelam-nos as infinitas possibilidades dos dégradés do extenso manto branco.
Esta é uma das paisagens que me acaricia quase diariamente.
Com os seus 60 km de extensão, o Eijafjördur (fiorde Eyja) é dos maiores e mais belos da Islândia. Akureyri, Grenivík, Dalvík ou a ilha de Hrisey, são alguns dos núcleos populacionais ao longo do fiorde a merecer uma visita.
Charming and fair is the land,
and snow-white the peaks of the glaciers,
Cloudless and blue purple is the sky,
the fjord is shimmering bright...
adaptação livre de um excerto do poema Iceland de Jónas Hallgrímsson
Surtsey - A ilha vulcão e a exposição em Reykjavík
A Ilha vulcão de Surtsey
Uma erupção de lava em 24 de Abril de 1964, numa vista para nordeste de Surtsey. No canto superior direito pode ver-se uma fotografia aérea de 29 de Agosto de 2002.
A Islândia é geologicamente, o país mais recente da Europa. Formou-se, devido a uma série de erupções vulcânicas, há cerca de 20 milhões de anos.
A dorsal meso atlântica que maioritariamente é submarina emerge na Islândia. Essa dorsal separa na ilha, a placa tectónica norte-americana da placa tectónica euro-asiática. As placas estão em movimento o que origina a actividade vulcânica intensa ao longo da dorsal (é a mesma que passa pelo os Açores). Sendo assim, a Islândia está em actividade vulcânica permanente.
Por isso costuma-se dizer que a Islândia continua em formação. A confirmação é Surtsey, a ilha vulcão que veio aumentar um pouco mais as dimensões do país, decorria o ano de 1963.
Surtsey (baptizada em homenagem a Surt, o gigante do fogo da mitologia nórdica) integra a mais recente lista da UNESCO do Património Mundial da Humanidade. É a mais recente ilha do oceano atlântico e a parte mais meridional da Islândia, pertencendo ao arquipélago de Vestmannaeyjar (ver neste blog o post: O pequeno arquipélago de Vestmannaeyjar - http://iceland-views.blogs.sapo.pt/5470.html).
Vídeo da formação da ilha de Sustsey numa das erupções vulcânicas mais acompanhadas de sempre
Foi a 14 de Novembro de 1963 que a pequena ilha emergiu no Oceano atlântico, numa erupção que começou a 130 m de profundidade. As violentas explosões causadas pelo rápida expansão do vapor sobreaquecido, produzido pelo contacto da água do mar com a lava incandescente, levou a que a ilha fosse essencialmente constituída por escórias de rocha vulcânica, de muito baixa densidade e com um grau de agregação diminuto, deixando a estrutura em extremo vulnerável à erosão marinha. Contudo, nesta fase, a produção de novo material excedia em muito a erosão, pelo que a ilha continuava a crescer. A partir de 1964, o vulcão até então constituído essencialmente por tefra, ganha uma dimensão em altura que faz com que a sua chaminé não estivesse mais em contacto com a água. A erupção ganhou um carácter menos explosivo, passando a emitir correntes de lava basáltica, que reforçaram os terrenos onde penetravam e recobriram boa parte da estrutura com uma camada de rocha consolidada. Isso impediu o rápido desaparecimento da ilha, como aconteceu com as suas pequenas irmãs, Syrtlingur e Jólnir. As erupções duraram até 5 de Julho de 1967, altura em que Surtsey atingiu as suas maiores dimensões (2,7 km2). Desde então, a erosão marinha e o vento tem vindo a reduzir gradualmente a sua área (actualmente inferior a 1,4 km2).
As crateras semicirculares no centro tem actualmente aproximadamente 154 m de altitude
Em 1965 a ilha foi declarada como uma reserva natural, tendo-se transformado num autêntico laboratório de investigação ao ar livre. Não podemos esquecer que na Islândia existe uma comunidade de vulcanologistas experientes. Assim, a ilha foi estudada intensivamente desde os estádios iniciais da erupção, fornecendo um modelo de grande interesse para os estudos de vulcanologia e evolução dos materiais vulcânicos, erosão costeira e ecologia, com destaque para estudos sobre os tufos vulcânicos e os processos de colonização vegetal de novos territórios insulares. Têm sido apresentados inúmeros estudos sobre diversos aspectos da biologia e ecologia das espécies que entretanto se foram fixando na ilha.
Ainda hoje, apenas cientistas credenciados em investigação de campo são autorizados a desembarcar na ilha. Os visitantes apenas a podem sobrevoar de avião ou avistá-la a partir de embarcações.
A Exposição Surtsey - Genesis na Casa da Cultura de Reykjavík
Vídeo montagem da exposição Surtsey-Genesis na casa da Cultura - Centro Nacional do Património Cultural em Reykjavík
Existe um motivo para fazer este post sobre a ilha vulcão de Surtsey. É que quando cheguei à Islândia em 2007, fui à Casa da Cultura em Reykjavík para ver a exposição multimédia surtsey – génesis.
Na Casa da Cultura, um Centro Nacional do Património Cultural, podem ver-se varias exposições em simultâneo, sendo algumas de carácter mais permanente. Entre estas, refira-se a dos manuscritos medievais - Eddas e Sagas, livros onde se encontram narrados todos os feitos vikings que tanto orgulham os islandeses. Haverei de falar sobre as Sagas vikings e do Eddas num post futuro. O Eddas foi já escrito pela pena do cristianismo. Contudo, o seu objecto acaba por ser o reflexo do paganismo na Islândia – as crenças e as sagas vikings.
Mas a exposição que nos interessa neste post é a e Surtsey – génesis. Esta exposição traça o nascimento e evolução da ilha vulcão, do início até aos dias de hoje, prevendo o desenvolvimento geológico e ecológico nos próximos 120 anos. São aplicadas as últimas técnicas multimédia para dar a conhecer as respostas de toda a pesquisa cientifica no terreno. A exposição é organizada pelo Instituto Islandês de História Natural.
Com o objectivo de partilhá-la convosco neste blog, antes da minha estadia em Portugal fui visitá-la de novo, acompanhado da minha pequena e antiga máquina de filmar.
Para quem não pode ir a Reykajvík, deixo acima o vídeo e a respectiva montagem. Abaixo, fica uma breve explicação, também em formato vídeo, das transformações da ilha sujeita à erosão marinha e eólica.
Espero que gostem!
explicação vídeo das transformações no diâmetro e área de Surtsey
Acesso ao web site da Sociedade de Estudo de Surtsey criada em 1965
Foram 2 meses em Portugal e uma visita à Andaluzia espanhola. No Porto e em Sevilha respira-se a história da humanidade, em cada edifício, em cada monumento, por trás de cada janela. São segredos que nos revelam serpentes transvestidas de moiras. São os sonhos de um passado a guiar o nosso futuro. Na plaza del Salvador, as estátuas de Dali combinavam imagens bizarras, oníricas, com a excelente qualidade plástica que lhe é (foi) reconhecida.
No mesmo dia, passei de 25 º C para as temperaturas negativas de Akureyri. O regresso foi dia 24 de Outubro.
Na Islândia, a natureza exprime-se sempre com uma amplitude de movimentos surpreendente.
Estou de regresso à Islândia, depois de 2 meses em Portugal e uma passagem por Sevilha (a belíssima cidade da Andaluzia espanhola). Foi um duplo “choque”, tanto térmico, como nos processos de socialização. Nesses 2 meses, o colapso financeiro das instituições bancárias arrastou o Estado islandês para a bancarrota. De um dos países mais ricos do mundo, aos pedidos de ajuda e de empréstimos de dinheiro, foi um curtíssimo passo. Contudo, foi um passo demasiado grande para a amplitude económica do Estado Islandês. Quando me preparava para postar sobre a depressão, resolvi visitar o blog do meu amigo Fernando e o meu estado de espírito mudou mais rapidamente que o colapso económico do país. Os culpados foram os Jeff Who?
Os Jeff Who? (deixem estar lá o pontinho de interrogação) são mais uma das dezenas de interessantes bandas que circulam pelo universo Indie/Pop/Rock.
Como muitos outros grupos, trata-se da junção de um grupo de amigos e colegas de escola que começam a tocar juntos, organizando festas, rodeados de amigos e muitas cervejas (não necessariamente por esta ordem). No final de 2004 os Jeff Who? estão já formados e o ano de 2005 apadrinha o seu álbum de estreia. Death before Disco é editado pela Bad Taste Records e nesse ano a banda faz a 1ª parte do concerto dos Franz Ferdinand em Reykajvík.
Não encontro más canções em Death Before Disco. Gosto do som retro e sincopado da sua pop que transmite frescura e alegria (apesar de retro e frescura sugerir uma antítese). Para mim, elemento essencial para essa frescura é o piano de Valdi, sempre muito bem tocado.
O grupo cedo captou a atenção dos media islandeses, nomeadamente pelos seus 2 primeiros singles, Death Before Disco e Golden Age que os levaram a ganhar 3 prémios das rádios de Reykjavík e 1 Icelandic Music Award, no ano de 2007.
Mas o grande convite para a festa chega com a música Barfly. Não sei se a escolha do nome da música será tão inocente, já que me remete para 1987 e o filme com o mesmo nome, de Barbet Schroeder, com a chancela de Francis Ford Coppola e interpretações de Mickey Rourke e Faye Dunaway.
Deixo-vos o vídeo de Barfly, retrato sentido das noites islandesas, inevitavelmente regadas pela ingestão de quantidades ilimitadas de bebidas alcoólicas, potencializadoras do excesso e consequente decadentismo.
Após 3 meses de ausência estou de volta! 3 meses sem tocar neste blog...
Já lhe renovei a cara. Estou a actualizar a informação e a preparar os novos "posts". Segunda-feira já tudo estará pronto. Enfim... mais formalmente deveria dizer:
EM RECONSTRUÇÃO!
Mas desde quando um blog, onde se derrama impressões, espaço de encontro de pessoas e amizades, poderá ser formal!?!
Estou de volta e pronto! De volta à terra do gelo e do fogo. E neste entretanto muito se passou envolvendo a Islândia. Muito haverá então para falar.
in a place where the sky never darkens but dims...
a room dressed mostly in pink
Neile Graham in "wearing nothing but the midnight sun"
Foi às 14 horas, do dia 20 de Junho, que parti com o meu amigo Vítor rumo aos West fjords (Fiordes do Oeste).
Esta era uma viagem que eu andava a programar há muito tempo e guardei-a para quando alguém muito especial viesse visitar-me.
Conheci o Vítor num dos locais mais improváveis, onde o silêncio pode ser constrangedor. Tinha acabado de entrar e ele chegou segundos depois. Ofegante perguntou:
- “ Vais para cima?”
- “Sim” respondi.
Íamos iniciar o mesmo curso de teatro organizado pela Seiva Trupe.
Com o fechar da porta e o movimento ascendente do elevador selou-se o encontro mais do que casual. Uma viagem de amizade que dura à mais de 15 anos.
Podemo-nos, muitas vezes, perder nos caminhos que trilhamos. Mas encontramo-nos na amizade, mesmo que por vezes existam hiatos.
Ir de encontro aos fiordes do Oeste é um dos mais belos passeios que poderão fazer na Islândia. É uma larga península separada do sudeste da Gronelândia por uma pequena faixa de oceano. Corresponde também à mais profunda e inóspita Islândia. Um pedaço de terra com a mais recortada linha costeira, polvilhada de fiordes e com uma tortuosa estrada que os desenha. Sendo praticamente uma ilha com uma densidade populacional baixíssima, foi das últimas regiões da Islândia a ser servida por estradas. Ainda hoje a gravilha substitui o alcatrão em muitos e extensos pedaços.
Mas sobre os west fjords irei falar num próximo post. Neste, o actor principal é o sol. O sol da meia-noite!
Enquanto fotografava e filmava compenetrado aquele solene sol, o Vítor consegue este instantâneo que guardarei para sempre.
Explicar o fenómeno do sol da meia-noite (midnight sun) em palavras pode não ser fácil. Por isso este post estará servido com fotos e 2 vídeos. Um filmado e montado por mim e que se denomina “atrás do sol da meia-noite”, testemunho desta nossa saga. Já no vídeo de baixo, condensam-se 3 horas em 10 segundos, para uma rápida visualização do fenómeno.
O sol da meia-noite acontece devido à inclinação do eixo da terra. A área em torno do pólo norte fica exposta ao sol durante 24 h/ dia no Verão. Quando a meia-noite se aproxima, o sol em vez de se esconder volta a subir.
Assim, enquanto no pólo norte e zonas limítrofes é dia durante 24 horas, no Pólo sul e zonas limítrofes é noite 24 horas e vice-versa.
Num país tão místico como a Islândia, talvez tenha sido por intervenção divina esta viagem coincidir com o mais longo dia do ano. Dia 20 de Junho, pudemos ver um belo sol laranja no miradouro que fica em frente a Sudavík. Mas foi no dia 21 que apreciamos e acompanhamos o fenómeno em toda a sua dimensão e com o céu limpo, algures entre Bolungarvík e Ósvör. Depois de uma perseguição na tentativa de encontrar o melhor local para o observar, seguindo uma intuição que veio a revelar-se perfeita, ficamos num ponto onde poderíamos ver toda a boca do Isafjardardjúp (uma língua de mar cheia de pequenos braços ou fiordes).
Então, pudemos apreciar o sol da meia-noite, como dificilmente voltará a acontecer. A luz tem requintes de magia e os púrpuras invadem o céu. O sol apenas plana sobre as águas frias sem nunca molhar os pés e assim vai-se estendendo, preguiçando pelo horizonte. Depois, lentamente, quase trocista volta a levantar-se. Um erguer majestoso para quem nunca deixou a noite chegar!
Neste vídeo o realizador condensa 3 h em 30 segundos de forma a que se veja em que consiste o sol da meia-noite.
Atrás do sol da meia-noite é o filtro possível do meu olhar e posteriormente da lente da minha antiga e fiel câmara de filmar digital. Mas o que não tem valido o pequeno investimento de 340 €.
Partilho convosco um dos mais belos fenómenos da natureza, com banda sonora dos islandeses Múm.
Nunca sabemos como será o futuro. Mas existem momentos, pela sua singularidade e intensidade que guardamos e que nos acompanharão a vida toda. Ter visto o sol da meia-noite é certamente um deles.
O Belo só existe na exacta medida em que se perpetua dentro de nós.
20 minutos separam os instantâneos das 2 fotos. Na montagem que fiz, poderá ver-se a trajectória horizontal do sol, percorrendo a boca que separa as extremidades do Ísafjardardjúp. Depois o sol voltou a subir, sem nunca se esconder.
1. A felicidade, as mentalidades, o tédio, o racismo e o orgulhosamente sós.
Interrogações acerca da realidade dos dados estatísticos.
Os islandeses são racistas na mesma proporção em que são uma sociedade fechada. Aos séculos de isolamento, com contactos quase inexistentes com o mundo exterior, junta-se a vontade de não querer mudar.
O desenvolvimento da Islândia e a prosperidade económica acontece depois da segunda guerra mundial. Se hoje existe praticamente tudo, a verdade é que até à poucas décadas atrás tal não acontecia. Por exemplo, frutas e vegetais entraram muito recentemente nos hábitos alimentares dos islandeses (alguns continuam a praticamente não os comprar).
A Europa demorou séculos a passar da idade média para a idade moderna. Séculos de contactos com outros povos e civilizações, tendo como resultado a transformação das mentalidades. Em particular, a história de Portugal é feita de contactos com outros continentes e as suas culturas. É certo que em muitos casos, esses contactos estão longe de ser pacíficos, não podendo falar-se de muitos acontecimentos passados com orgulho. Mas contextualizem-se no tempo e na época. Não podemos orgulhar-nos de todos os acontecimentos da nossa história, da mesma forma que individualmente ninguém pode dizer ter agido sempre correctamente. Mas o objectivo do post não é dissecar a história de Portugal e da civilização ocidental.
A questão é que os séculos que na Europa permitiram passar-se da Idade média para a idade moderna (contactando com outros povos e culturas, desenvolvendo Universidades, com revoluções – liberais, industriais, etc…), não aconteceram na Islândia.
A Islândia passou muito rapidamente de uma idade média para a idade moderna. Diria que em menos de 100 anos. Se tal é possível na vertente tecnológica, as transformações culturais e comportamentais necessitam de mais tempo. Necessitam de mais gerações.
A Islândia, foi durante todos estes séculos um país isolado e consequentemente fechado em si próprio. Isso ainda hoje se reflecte.
As grandes convulsões sociais na Europa, bem como os acontecimentos na América do sul e central, África e Ásia não faziam parte da realidade islandesa. O desconhecimento era imenso.
Os islandeses viveram sempre virados para dentro e ainda hoje o seu umbigo é o centro do mundo.
Sendo assim, vivem os seus pequenos problemas, apesar do tédio com que os vivem! Justificam a quantidade de bebidas alcoólicas ingeridas durante o fim-de-semana com o argumento de nada mais haver para fazer. Na verdade, nunca entendi muito bem esta forma de pensar, já que apesar de não terem muitas atracções internacionais a visitá-los, tem um agitado mercado artistico-cultural interno. As escolas de arte e música são muitas e todos os seus grupos de música e dança, bem como os artistas plásticos, apresentam-se com regularidade. Além disso, tem cinemas, cafés, museus e um país único para se viajar. Durante 6 meses a neve é exclusiva dos glaciares e dos picos das montanhas. Tempo suficiente para que se possa admirar os fenómenos naturais, mesmo que em locais servidos por estradas pouco acessíveis (tirando a numero 1 que circunda a ilha, são praticamente todas as outras!).
Porquê esta sensação de tédio dos islandeses? Porquê a sensação que não existe nada para fazer?
Em primeiro, acho que tem a ver com a dificuldade de relacionamento social existente. A balada ou noitada existe para beber depressa de forma a ficar rapidamente bêbado. Isso é um prejuízo para a socialização, Ficando mais difícil conversar e consequentemente fazer amizades.
Além disso, este povo não prima pela delicadeza e graciosidade. Ou seja, com os copos e no meio da sua rudeza e aspereza somos embalados por encontrões em forma de ondas contínuas!
Sintomático é o facto de no dia a dia não usarem expressões, no inicio ou final de uma frase, como Excuse-me, sorry ou please. A dificuldade que existe em pedir permissão é igual à dificuldade que existe em exteriorizarem afectividade, num relacionamento social. O islandês não é polido e sendo assim não pede. Faz!
Em conversa com uma colega de trabalho (uma menina islandesa de 19 anos) na área de ski de Hlidarfjall, ela dizia-me:
- Nós não gostamos de pessoas “polite”.
Logo respondi-lhe:
- I`m fucked!
A mesma menina, depois de acabar a temporada de esqui, foi passar férias na Dinamarca (para muitos islandeses o resto do mundo chama-se Dinamarca, de quem se auto-proclamaram independentes em 1944, quando esta estava ocupada pelas tropas germânicas) e vim a saber que passou 2 noites na prisão. É que às 3 h da manhã resolveu ir correr consoante veio ao mundo (peladinha) pelas ruas de Copenhaga! Acreditem que na Islândia, não é tão anormal, que nos bares alguém se lembre de baixar a calça e mostrar os órgãos genitais. Eu próprio já assisti a isso mais do que uma vez. Mas na Dinamarca parece que as pessoas são um pouquinho mais “polite” e o jardim dos outros não é o nosso jardim (acreditem que nem pensei na Madeira!).
Claro que um islandês perdido de bêbado ou fica prepotente ou senão disponível para falar contigo. Mas desengane-se quem julgar que podemos estar no início de uma amizade. Se o encontrar sóbrio no dia seguinte, é como se nunca tivesse falado connosco. Se nos dirigimos até ele, a fim de educadamente o cumprimentar, não só ele irá estranhar, como relutantemente o fará e sem recurso a um afável sorriso.
Já agora, se um islandês vier falar connosco utilizando o Inglês é porque certamente estará já com os copos.
Ao fim de semana, as noites na Islândia podem ser caóticas. Muitos deles bebem para lutarem entre si. Reminiscências das festas vikings, forma de afogarem o tédio, debaixo dos olhares de complacência das autoridades. Se criarem distúrbios num bar, passados uns minutos poderão entrar novamente.
Imaginam como é quando eles viajam de férias para a Dinamarca e para o sul de Espanha com este comportamento?
Sim, porque os mais novos ficam admirados quando se lhes é dito que nos outros países não é tolerado o mesmo tipo de comportamento.
A resposta é:
- Julguei que fosse assim em todo o lado!
Mas, sem dúvida, existe um complexo de insularidade, que degenera em prepotência, autismo e em ultima instância se manifesta sob a forma de racismo.
O Islandês não quer entrar na união europeia porque acha que tem um nível superior e que não necessita da Europa para nada. Justificam com os séculos de isolamento, debaixo das condições climatéricas mais adversas, como atestado para a sua eterna auto-suficiência.
Ou seja, no orgulhosamente sós a disponibilidade para o Outro é menor.
Sendo ainda uma Sociedade fechada, não é fácil para um estrangeiro viver aqui. Muitos queixam-se de não conseguirem fazer amizades. Penso que isso torna a estadia mais penosa do que a ausência da luz solar no Inverno.
E existe o racismo. A primeira pergunta que te fazem é: - "Talarðu íslenskú?" (falas Islandês?). Perante a nega começa a seriação. Será que eles têm consciência que ninguém no mundo fala islandês!?! Que é uma língua apenas falada pelas 300 mil pessoas que vivem na ilha? Que só podemos aprender islandês na Islândia e que sendo uma das mais difíceis línguas necessita de tempo (diria muito tempo!)?
Como eles vivem no seu próprio umbigo, aos estrangeiros normalmente resta o trabalho indiferenciado, onde existem vagas não preenchidas por islandeses. Isso origina que muitos estrangeiros formados (e em áreas especificas) não arranjem trabalho condigno com as suas habilitações. Existe sempre um islandês que apesar de menos habilitado (por vezes sem habilitação ainda), tem a preferência. Um super proteccionismo ainda digno de uma mentalidade medieval paira no subconsciente dos islandeses e algumas gerações mais serão precisas, para que a mudança total se opere. Compare-se isto com o cosmopolitismo londrino a 2 escassas horas de avião.
Pode também fazer-se o contraponto com a Finlândia, onde os estrangeiros são bem vindos sem necessitarem de falar a língua nativa e onde são vistos como motor do desenvolvimento económico, nomeadamente aqueles que com habilitações são conduzidos para cargos especializados.
Na Islândia o desenvolvimento económico e tecnológico não foi acompanhado pelas mudanças de mentalidade. Sendo assim, o Outro (leia-se estrangeiro) é muitas vezes visto como uma ameaça à sua cultura em vez de ser visto como alguém que poderá transmitir posteriormente a cultura islandesa ao resto do mundo. Não será isto um complexo de inferioridade? A cultura islandesa é forte (a maioria das sagas vikings foram escritas aqui), está enraizada e não corre qualquer risco. Quando irão os islandeses entender que a abertura só será um ganho para a transmissão da sua História e Cultura?
Fecharem-se sobre si, pode ter sido útil no passado, mas creio que no futuro e num mundo cada vez mais global não trará nada de bom, nomeadamente para a economia islandesa, actualmente em crise.
Muitas questões gostaria de abordar, mas deixarei para outra altura. Nomeadamente aquela que diz (ou dizia) ser a Islândia o país mais feliz do mundo. Isso coloca-me muitas interrogações. Primeiro teríamos de definir o conceito de felicidade. Depois saber qual a diferença entre alegria e felicidade. Por ultimo, saber que estudos são esses e que variáveis utiliza. De certeza que quem publica um estudo desses não faz trabalho de terreno integrado na Sociedade e que as variáveis predominantes serão as quantitativas em detrimento das qualitativas. Mas as variáveis quantitativas são manobráveis e podem estar sujeitas a uma boa operação de marketing.
Desafio um cientista social a vir fazer um Estudo Qualitativo sobre Felicidade à Islândia. Acho que esse trabalho está a ser necessário, recorrendo ao trabalho de campo (trabalho de terreno / observação participante) mínimo de 3 anos.
Para que fique bem vincada a minha opinião. É ridículo dizer e vender-se essa ideia. Os Islandeses não só não são o povo mais feliz do mundo, como estão longe disso (isto se for possível numerar-se a felicidade de um Povo ou Sociedade).
Pelos motivos expostos em cima e por muitos outros.
2. Para lá das estatísticas existe a realidade
Li algures que a Reykjavík (com menos de 200 mil habitantes) tinha tantos jornais diários como o Rio de Janeiro (com mais de 4 milhões de habitantes). Isso era usado para enfatizar os índices de leitura na Islândia (o povo com mais hábitos de leitura dizia o artigo).
Será que o Rio de Janeiro tem a mesma percentagem de jornais gratuitos como na Islândia?
Vamos falar de elites ou vamos falar de cidadãos médios? Quanto mais tempo vivo aqui, mais questiono as “certezas” que nos fornecem os dados quantitativos. Não vejo o cidadão médio islandês ter um nível de interesses e consequentemente cultural diferente do cidadão médio português. Acho que as variáveis económicas sobrevalorizam a realidade da Islândia.
Depois, o desconhecimento que existe no exterior sobre o país ajuda à fantasia. Já agora, os níveis de escolaridade têm subido em Portugal. Isso é proporcional ao aumento de conhecimento real dos alunos?
Havendo interesse institucional é fácil aplicar politicas que em poucos anos inflacionem os níveis estatísticos. Se a economia de um país for pungante mais fácil será trabalhar as variáveis estatísticas.
Portugal tem mais de 10 milhões de habitantes. A Islândia pouco mais de 300 mil. A diferença de área entre os dois países é pouco superior a 15%. Como seria a economia islandesa com 10 milhões de habitantes, tendo em conta todos os problemas que isso implicaria, começando pela poluição...?
Resposta a um email: Skaftafell e o sul da Islândia
As formações rochosas de Vík no sul da Islândia e a praia de areia preta. Foto de Set.2007
Ultimamente algumas pessoas têm enviado emails com perguntas sobre a Islândia. Durante o mês de Agosto, 4 pessoas de distintos locais do Brasil que me escreveram, virão visitar a ilha que foi escolhida como destino de férias.
Este post é a resposta a um desses emails. Serve assim, para colocar no blog algumas fotos que fui tirando ao longo do tempo, neste caso, do sul do país.
Boa noite Ivo.
Obrigado pela abertura para esclarecimentos.
Vamos às perguntas:
1- Já vimos que os hosteis em Reykjavik já estão todos ocupados para a época que estaremos por lá (dias 12 e 13/08 e 17 à 18/08). Apenas verificamos no Reykjavik City Hostel. Você saberia informar se há muitas outras opções de hostel na cidade ou se nessa época, para quem ainda não fez reserva, é mais fácil ficar acampado do que conseguri vaga em hostel?
2- Nossa idéia é chegarmos por Reykjavik, passar 1 dia e seguir para a região do Skaftafell National Park. Você conhece essa região? Acha que realmente, pelo pouco tempo que temos, é interessante ir para lá ou tem alguma outra região que você sugeriria?
3- Você sabe se é fácil conseguir vaga em hostel na região de Skaftafell nessa época que estamos viajando?
4- Você aconselha alugarmos um carro para fazermos a viagem ou é melhor pegarmos ônibus? Ônibus entre Reykjavik e Sjaftafell são frequentes? Tem-se ônibus a toda hora?
5- Você teria alguma sugestão de passei para o período que ficaremos na Islândia (5-6 dias)?
Ivo, mais uma vez lhe agradeço pela grande ajuda! E, qualquer informação que você tiver será de grande valia para nós.
Um abraço
Gullfoss é talvez o mais divulgado postal da Islândia. A raínha das quedas de água faz parte do Golden Circle, o mais antigo Daily Tour. No sul da Islândia, Foto Set. 2007.
A questão das dormidas coloca-se todos os verões. Vá contactando os diferentes hotéis e Guesthouses a ver se tem sorte. Senão, resta-lhe o parque de campismo. Oxalá o tempo ajude (o que é sempre uma incerteza neste país!). Se tiver dificuldade em arranjar uma lista de hotéis em Reykjavík avise. Mas julgo que arranjará facilmente na internet. Posso dar uma dica com uma boa relação preço – qualidade: Hotel Cabín (www.hotelcabin.is/). É aliás um dos melhores locais para se comer em Reykjavík (barato e para o dia a dia). Um buffett que tem verdes, frutas e feijão. Porque em outros locais não só é mais caro, como cremes, natas e calorias abundam! O fast food está bem implementado na Islândia.
Já agora, pode tentar a guesthouse Bina (003548956585)para dormida em Reykjavík.
cratera de Kerid no sul da ilha. Foto Nov. 2007
Relativamente ao Skaftafell National Park:
Nunca lá fui, apesar de já ter andado a passear pelo sul mais do que uma vez. Mas a Islândia tem tantos locais para ver que é impossível ir a todos. Isso implica tempo conjugado com disponibilidade. Contudo, conheço quem tenha ido lá. Além disso, como estou a envolver-me com o turismo (nomeadamente de Portugal para a Islândia) tenho brochuras, bem como vários livros com imagens, informações e história do local.
Skaftafell é um dos destinos mais vendidos da Islândia, sendo a mais popular área selvagem do país. Isso faz que em Julho seja boa ideia evitar durante o fim-de-semana, devido ao elevado número de excursões e pessoas. Se o vosso interesse é estar em comunhão com a natureza, deverão acampar no parque de campismo de Skaftafell durante a semana. Ao fim de semana arriscam-se a ter que aturar a noite toda, os islandeses sob o efeito do álcool ingerido. É que muitos vão de Reykjavík acampar para lá. Como bons islandeses que são, fazem-se acompanhar de uma considerável quantidade de bebidas alcoólicas que ingerem até cair, entre urros desbragados e o desrespeito total por quem queira descansar.
Mas Skaftafell é um local bonito e poderão fazer escaladas no gelo, usufruir de vistas fantásticas e fotografar as cachoeiras, como a de Svartifoss (parecendo o véu de uma noiva – embora não tão alta como na Chapada dos Guimarães), rodeada de elegantes colunas de lava basáltica.
Strokkur em actividade. Possível de ver para quem fizer o Golden Circle. Foto Junho 2008
Definitivamente aconselho o aluguer de um carro. Por 2 motivos:
Primeiro, porque acho as excursões de camioneta acabam sempre por ficar pelo preço do aluguer de um carro. Se o visitante vier sozinho a viagem ainda pode ficar mais barata de camioneta (ónibus). Mas duas pessoas a dividirem o aluguer e a gasolina de uma viatura acaba por compensar. Pela liberdade, por terem tempo para visitarem mais locais, porque podem alongar nesses locais o tempo que entenderem e indo até onde quiserem numa exploração pessoal.
Skógafoss na margens da estrada nº1. Sul da Islândia. Foto Nov. 2007
Se a vossa decisão for o Skaftafell National Park, alugando um carro poderão visitar a Jökulsárlon lagoon (ver o pequeno vídeo que coloquei neste blog com o nome de: Vatnajökull (the sound of) – O som do aquecimento global). É próximo e um dos locais mais belos. Seguindo a estrada poderão visitar também a bonita baia de Höfn e o seu Folk museum (tem uma exposição interessante sobre o grande glaciar).
Obviamente que de carro e quando forem a caminho de Skaftafell, irão fazer o Golden Circle, visitando o parque de Guéisers, a mais fotografada queda de água - Gullfoss, a cratera Kerid e Pingvellir, um pequeno parque nacional, onde poderão ver o encontro das placas tectónicas europeia e americana e o mais antigo parlamento do mundo. Nessa viagem de carro até Skaftafell, poderão ainda parar, para ver as diferentes quedas de água que tem pelo caminho (como Skógafoss) e em Vík, onde além do museu, poderão admirar as praias de areia negra, bem como os recortes das rochas e rochedos no limiar da praia e do mar.
Claro que poderia dar-vos outras sugestões. As possibilidades são imensas. Acho que deveriam vir ao norte. Acho também, que deveriam ver os fiordes de oeste (experiência única! Em breve irei postar sobre a minha viagem aos fiordes de Oeste, o mais inóspito local da Islândia). Contudo, 5, 6 dias não dá para tudo.
Usufruam a vossa opção!
O museu Folk em Vík, no extremo sul insular. Foto Set. de 2007