Terça-feira, 19 de Agosto de 2008

Atrás do sol da meia-noite

 

in a place where the sky never darkens but dims...
a room dressed mostly in pink 

 

Neile Graham in "wearing nothing but the midnight sun"

 

 

 

Foi às 14 horas, do dia 20 de Junho, que parti com o meu amigo Vítor rumo aos West fjords (Fiordes do Oeste).
Esta era uma viagem que eu andava a programar há muito tempo e guardei-a para quando alguém muito especial viesse visitar-me.
Conheci o Vítor num dos locais mais improváveis, onde o silêncio pode ser constrangedor. Tinha acabado de entrar e ele chegou segundos depois. Ofegante perguntou:
- “ Vais para cima?”
- “Sim” respondi.
Íamos iniciar o mesmo curso de teatro organizado pela Seiva Trupe.
Com o fechar da porta e o movimento ascendente do elevador selou-se o encontro mais do que casual. Uma viagem de amizade que dura à mais de 15 anos.
Podemo-nos, muitas vezes, perder nos caminhos que trilhamos. Mas encontramo-nos na amizade, mesmo que por vezes existam hiatos.
 
Ir de encontro aos fiordes do Oeste é um dos mais belos passeios que poderão fazer na Islândia. É uma larga península separada do sudeste da Gronelândia por uma pequena faixa de oceano. Corresponde também à mais profunda e inóspita Islândia. Um pedaço de terra com a mais recortada linha costeira, polvilhada de fiordes e com uma tortuosa estrada que os desenha. Sendo praticamente uma ilha com uma densidade populacional baixíssima, foi das últimas regiões da Islândia a ser servida por estradas. Ainda hoje a gravilha substitui o alcatrão em muitos e extensos pedaços.
Mas sobre os west fjords irei falar num próximo post. Neste, o actor principal é o sol. O sol da meia-noite!
 
Enquanto fotografava e filmava compenetrado aquele solene sol, o Vítor consegue este instantâneo que guardarei para sempre.
 
Explicar o fenómeno do sol da meia-noite (midnight sun) em palavras pode não ser fácil. Por isso este post estará servido com fotos e 2 vídeos. Um filmado e montado por mim e que se denomina “atrás do sol da meia-noite”, testemunho desta nossa saga. Já no vídeo de baixo, condensam-se 3 horas em 10 segundos, para uma rápida visualização do fenómeno.
O sol da meia-noite acontece devido à inclinação do eixo da terra. A área em torno do pólo norte fica exposta ao sol durante 24 h/ dia no Verão. Quando a meia-noite se aproxima, o sol em vez de se esconder volta a subir.
Assim, enquanto no pólo norte e zonas limítrofes é dia durante 24 horas, no Pólo sul e zonas limítrofes é noite 24 horas e vice-versa.  
Num país tão místico como a Islândia, talvez tenha sido por intervenção divina esta viagem coincidir com o mais longo dia do ano. Dia 20 de Junho, pudemos ver um belo sol laranja no miradouro que fica em frente a Sudavík. Mas foi no dia 21 que apreciamos e acompanhamos o fenómeno em toda a sua dimensão e com o céu limpo, algures entre Bolungarvík e Ósvör. Depois de uma perseguição na tentativa de encontrar o melhor local para o observar, seguindo uma intuição que veio a revelar-se perfeita, ficamos num ponto onde poderíamos ver toda a boca do Isafjardardjúp (uma língua de mar cheia de pequenos braços ou fiordes).
Então, pudemos apreciar o sol da meia-noite, como dificilmente voltará a acontecer. A luz tem requintes de magia e os púrpuras invadem o céu. O sol apenas plana sobre as águas frias sem nunca molhar os pés e assim vai-se estendendo, preguiçando pelo horizonte. Depois, lentamente, quase trocista volta a levantar-se. Um erguer majestoso para quem nunca deixou a noite chegar!                                            

 

 Neste vídeo o realizador condensa 3 h em 30 segundos de forma a que se veja em que consiste o sol da meia-noite. 

 

Atrás do sol da meia-noite é o filtro possível do meu olhar e posteriormente da lente da minha antiga e fiel câmara de filmar digital. Mas o que não tem valido o pequeno investimento de 340 €.
Partilho convosco um dos mais belos fenómenos da natureza, com banda sonora dos islandeses Múm.
 
Nunca sabemos como será o futuro. Mas existem momentos, pela sua singularidade e intensidade que guardamos e que nos acompanharão a vida toda. Ter visto o sol da meia-noite é certamente um deles.
O Belo só existe na exacta medida em que se perpetua dentro de nós.
 
 

20 minutos separam os instantâneos das 2 fotos. Na montagem que fiz, poderá ver-se a trajectória horizontal do sol, percorrendo a boca que separa as extremidades do Ísafjardardjúp. Depois o sol voltou a subir, sem nunca se esconder.

 

para uma explicação esquematizada

 http://www.youtube.com/watch?v=dTkok9xetQM

 

publicado por Ivo Gabriel - Iceland Views às 01:29
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12 comentários:
De Fernando a 19 de Agosto de 2008 às 10:01
fantástico!!
Fotos excelentes e o vídeo tá muito bom, grande realização!!
gostei de múm :)
De Watalane a 14 de Maio de 2010 às 15:37
Perfeito! Sem palavras...
De monica a 20 de Agosto de 2008 às 19:54
Gabriel,
Migro do velho mundo, com saudades da babyland e dessa maravilhosa experiência que tu, generosamente, compartilhas com todos nós.
Vou estar sempre por aqui...
bj afetuoso,
mv
CDG 20 de agosto de 2008
De maria helena a 23 de Agosto de 2008 às 23:51
Descobri o teu blog ao fazer "blogging" ( ser´que s pode dizer?) prcurando coros porque canto num.
Fiquei presa.
Visitei Reykjavik há uns anos em Julho em trabalho. Tive imensa pena de não poder estar mais tempo. Apenas tive alguns bocados livres que aproveiti para visitar os arredores ao fim do dia e durante a "noite".
Que faz um português (?) aí?

Lena


Obrigada pelas im
De Ivo Gabriel - Iceland Views a 24 de Agosto de 2008 às 23:27
Fernando:
Eu sabia que ias gostar de Múm!
Mónica:
O mundo é mais pequeno do que uma bola de ping pong. Estiveste na Islândia e o blog foi o rastilho de uma amizade. Aqui ou aí a distância não é mais do que virtual.
Beijokas.
Lena,
Bem vinda ao blog. Espero que possas voltar à Islândia, se essa for a tua vontade.
Um português aqui, para além de trabalhar, faz-se viajante na eterna procura do seu rumo. Afinal... "Caminante, no hay camino, se hace camino al andar."
Besitos
De vitor a 25 de Agosto de 2008 às 18:37
Querido amigo, só hoje vi este post e fiquei emocionado. Estarei eternamente grato por ter vivido contigo um dos momentos mais belos da minha vida. Essa incrível viagem ao sublime que fizemos e que as palavras não consegeum expressar.
Um forte abraço,
Vitor
De perplex3r a 26 de Agosto de 2008 às 00:29
Que cenário perfeito! Mesmo bonito...realmente, à aqueles cantos "sabe-se lá onde" onde se vê que a Natureza é perfeita!
De Sofis a 3 de Outubro de 2008 às 00:11
Como eu gostava de estar aí! É um país que fascina-me pelo seu todo.. Língua, cultura, geografia.. Um paraíso terreno!

Infelizmente em Portugal não há onde se aprenda islandês.. Nem quem se interesse por tal..

Aproveite essa experiência e vive-a ao máximo! ;)



De Natália Pereira a 21 de Outubro de 2008 às 11:34
Bem, vou tratar-te por tu apesar da diferença de idades, tenho quase 50.
Há 10 anos atrás estive 2 vezes na Islândia, como tu era professora. Como tinha vários conhecimentos aí estive com o bilhete na mão, mas tive medo de deixar tudo.
Hoje não sei se fiz bem, mas está feito. Este ano já não aguentava mais a escola e saí, estou a fazer a investigação do meu mestrado e a terminar o curso de professora de dança (ballet).
A minha amiga, aqui é de Akureyri e o filho vive aí com o avô.
Estou com muita vontade de voltar, para trabalhar aí durante, se calhar no verão quando terminar a tese ou agora no natal, numa fábrica de peixe.
Pode ser um abuso da minha parte, mas quais são as hipóteses de trabalho? Se não fossem os seminários e a dança até ia já, mas não tenho trabalho e preciso de terminar isto para ter ferramentas para fazer algo.
A minha amiga vai no natal e também vai ver como estão as coisas, mas se me poderes dizer qualquer coisa agradeço.
Eu adoro a Islândia e tenho uma saudade imensa, como só os portugueses sabem sentir.
Um abraço - Natália
De Ivo Gabriel - Iceland Views a 24 de Novembro de 2008 às 23:53
Natália,
Como sabes, as coisas pela Islândia não estão bem. O colapso económico recente fez disparar os residuais 0,5% de desemprego verificados no ano transacto, para (estima-se) mais de 10% no final deste ano. Números que não aconselham a emigração no momento.
Não pretendo desanimar nem diluir o teu sonho. Apenas transmitir uma realidade estatística.
A única certeza da vida é que não sabemos o amanhã. Por isso...

Fica um beijinho da Islândia
De SandraTê a 5 de Janeiro de 2009 às 19:28
Num só momento encontrar os passos de dois amigos que já não vejo há mais de quinze anos não deve ser só uma questão de sorte...

Abraço apertado

sandraTê
De Ivo Gabriel - Iceland Views a 12 de Janeiro de 2009 às 10:42
Olá sandra,
Como o mundo é curtiinho de mangas...
O Vítor disse-me, de facto, que esteve contigo.
Tu já me encontraste... e eu onde te encontro?
Beijinhos e um ano de 2009 repleto de sonhos concretizados!

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